Estudantes, professores e direção da escola durante apresentação do Projeto. Atrás do grupo a horta escolar e o início de uma agrofloresta - Foto: Aurio Gislon

Tudo começou quando o novo diretor tomou posse em 2015. Valcir Gislon assumiu a direção da escola com um Plano de Gestão ousado, de implantar a Escola do Campo. Em 2017, Valcir fez o primeiro contato com a Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina e conversou com a coordenadora do Programa Escola do Campo, Helena Alpini Rosa, em Florianópolis. A implantação da Escola do Campo em Santa Margarida começou efetivamente em 2018, com a tramitação na Coordenadoria Regional de Educação de Taió, com total apoio da coordenadora Patrícia Anderle Schreiber. No ano seguinte, o projeto da Escola do Campo Pedagogia da Alternância em Salete foi enviado para a Secretaria Estadual de Educação e foi aprovado. Com isso, a Escola de Ensino Fundamental Roberto Heinzen passou a ser um marco histórico pois, é a Escola que fez frente para as outras Escolas de Ensino Fundamental e que conquistou seu espaço como Escola do Campo no Ensino Fundamental, até neste momento  a Secretaria da Educação não tinha nenhuma escola com matriz curricular ou decreto que as escolas de ensino fundamental  localizada no campo, pudessem fazer parte do programa Escola do Campo. Em 2020 a pandemia da Covid-19 atrapalhou o andamento do Projeto no estado, mas em 2021 as escolas voltaram às aulas presenciais e a nova matriz curricular, contemplando a Escola do Campo com o projeto Pedagogia da Alternância, ganhou novo impulso. E no dia 9 de setembro de 2021 a EEF Roberto Heinzen é declarada oficialmente Escola do Campo.

A Pedagogia da Alternância tem como objetivo buscar interação entre o estudante que vive no campo e a realidade que ele vivencia em seu cotidiano, de forma a promover constante troca de conhecimento, entre seu ambiente de vida e trabalho e o escolar.

CAMPO COMO MODO DE VIDA PARA VIVER BEM E COM QUALIDADE

A Escola do Campo com a Pedagogia da Alternância vai muito além de ser um instrumento de permanência dos jovens no campo. Ela desenvolve o jovem num todo,  tanto para o campo como para a cidade. No decorrer dos estudos os jovens se preparam para assumir seu espaço na comunidade.

Talvez você se pergunte de que forma isso acontece? 

No primeiro momento é feito um inventário (questões sobre a realidade onde o jovem vive)  podendo assim  diagnosticar  a situação que quer estudar aperfeiçoando assim seu modo de vida, tendo esse primeiro momento os jovens escolhem um tema gerador para ser estudado,  neste momento escolheram como tema gerador horta. Você como leitor poderia se perguntar, mas o que tem de diferente? Não vejo nada de interessante em fazer algo tão comum e corriqueiro. Aqui está o papel fundamental da Escola do Campo, desenvolver o jovem num todo. O jovem de primeiro momento levanta o problema, aprende a pesquisar, buscar respostas e novas metodologias de trabalho, desta forma eles aprendem a planejar seu dia, sua semana , mês e ano.

Neste sentido a vida  se torna mais fácil, leve e ousada. Com um bom planejamento percebemos que temos novas oportunidades. O aluno aprende a administrar de uma forma simples seu tempo entre trabalho, estudo, lazer, espiritualidade, vida social e claro a questão financeira. Tudo isso com a participação dos pais. Depois da teoria desenvolvida é hora de colocar o tema em prática. E Como tudo isso pode ser desenvolvido?     Na nova Matriz Curricular é contemplada todas as disciplinas regulares do ensino fundamental, com um acréscimo de uma aula a mais em cada disciplina e mais  quatro disciplinas diferenciadas: Agricultura Familiar; Estudos Orientados; Projeto de Intervenção e Pesquisa e Projeto de Vida.  Os estudantes do 8º e 9º ano são contemplados com um projeto que permite alternar um tempo em casa e um tempo na escola. Na propriedade os estudantes aplicam os conhecimentos e atividades práticas de acordo com a teoria desenvolvida na escola.

EEF Roberto Heinzen, em Santa Margarida, Saleta – Foto: Arquivo da escola

O  MATERIAL PEDAGÓGICO ESSENCIAL 

O carro chefe de estudo e os instrumentos utilizados pelo Projeto Pedagogia da Alternância são: inventário (levantamento de dados), o Caderno de Síntese para anotações e registro de todas as atividades relacionadas, a exemplo de palestras e pesquisas,  Ficha de Alternância, com registros para que os pais possam acompanhar e o Caderno da Realidade, que é o trabalho final do aluno, com a conclusão do Projeto. Este caderno fica na  escola até o término do 9º ano e ao concluir o aluno leva pra casa.

O QUE CADA DISCIPLINA DESENVOLVE

Cada disciplina trabalha uma parte do conhecimento que o aluno vai formar. Nas disciplinas diferenciadas que este projeto contempla não é diferente, então explicamos um pouquinho o que cada uma trabalha.

Agricultura Familiar – Nesta disciplina os alunos estudam identidade, cultura, gênero, etnia, relações sociais no processo histórico de produção econômica e cultural da agricultura familiar, estudando os problemas e as potencialidades do setor. Também estudam sobre as diferentes concepções da agricultura familiar, ocupação e transformação do ambiente e a relação campo e cidade. Além disso, esta disciplina dialoga com as outras disciplinas na elaboração de projetos em conjunto.

A Professora Bruna Eduarda Schmitz é responsável pela disciplina Agricultura Familiar.

Estudos Orientados – Esta disciplina está diretamente relacionada com a de Agricultura Familiar. Auxilia na pesquisa e na metodologia da alternância, contribuindo no processo educativo para que o estudante tenha instrumentos para aplicar o que aprende na escola lá na propriedade familiar.

A disciplina auxilia o aluno a buscar novos recursos para  aplicar na propriedade, a partir de um diagnóstico das potencialidades e problemas existentes, que possam ser resolvidos com alternativas práticas, tecnológicas e científicas, melhorando a qualidade de vida da família e da comunidade.

A Professora Viviani Nienkotter  é responsável pela disciplina Estudos Orientados

Projeto de Intervenção e Pesquisa – É uma disciplina voltada à pesquisa e à ação, onde o estudante constrói na dialética de sua prática e interação com toda a comunidade escolar, novos conhecimentos e novos compromissos. Prepara o aluno para fazer uma boa pesquisa, com investigação e intervenção, compreendendo sua prática, com coleta de dados e senso crítico.

Tendo instrumentos eficazes para analisar sua prática, com o acompanhamento pedagógico, o aluno pode encontrar soluções e inovar, contribuindo em todo o processo, que depois tudo é apresentado num relatório dos resultados alcançados.

A professora Julia Tamara Schmitz Maçaneiro é a responsável desta disciplina.

Projeto de Vida – Disciplina que tem por objetivo que o aluno possa elevar seu nível de consciência em sua trajetória de vida, identificando oportunidades para um planejamento pessoal, sendo protagonista de sua história e que possa contribuir com a vida em família e comunitária, com autonomia e criatividade.

As aulas nesta disciplina desenvolvem a intelectualidade do estudante, fazendo com que ele se questione sobre quem ele é, quem é sua família, qual a percepção que os outros têm dele e pense em suas metas e objetivos de vida. Caráter, valores humanos, árvore da vida, contrato de convivência, são exemplos de temas desta disciplina.

O professor Jaison  Michels é o responsável por esta disciplina.

Para fazer elo entre as disciplinas, professores, pais e a direção da escola, o Projeto tem o Orientador de Convivência, que tem o papel administrativo e toda a movimentação no tempo e no espaço escolar, familiar e comunitário. Esse apoio pedagógico tem como objetivo o desenvolvimento pessoal e cognitivo do estudante.

A professora Mônica de Oliveira é responsável por essa função na EEF Roberto Heinzen, em Santa Margarida.

POLÍTICA PÚBLICA DE ESTADO

A Escola do Campo e o Projeto Pedagogia da Alternância iniciou como uma política de governo. De acordo com a responsável pelo Programa na Coordenadoria Regional de Taió, Patrícia Anderle Schreiber, com a Lei número 16.794/2015, de 14 de dezembro de 2015, o que era programa de governo passou a ser uma política pública de Estado. Com isso pode mudar de governo, mas a Escola do Campo continua.

“A Portaria 2308, de 9 de setembro deste ano (2021), veio para dar celeridade ao Programa, com a criação do Núcleo da Educação do Campo, baseado na legislação”, explicou Patrícia.

Patrícia informou que na Regional de Taió são três escolas que no momento estão contempladas como Escola do Campo: Escola de Educação Básica João Kuchler, em Rio da Anta, município e Santa Terezinha; Escola de Ensino Fundamental Waldomiro Colautti, em Rio da Prata, município de Rio do Campo e a Escola de Ensino Fundamental Roberto Heinzen, em Santa Margarida, município de Salete.

“Para mim é uma grande satisfação poder fazer parte da Coordenação da Escola do Campo, pois eu acredito na força do campo e sei da importância de jovens e adolescentes permanecerem em suas propriedades, com suas famílias, levando conhecimento para o seu dia a dia”, salientou Patrícia.

De acordo com a coordenadora da Educação do Campo na Gerência de Modalidades Programas e Projetos Educacionais da Diretoria de Ensino da Secretaria de Estado da Educação, Helena Alpini Rosa, o objetivo principal do Projeto é “colaborar para a concretização de uma política de educação do campo como direito dos sujeitos que ali habitam e como instrumento de desenvolvimento social que possibilite o atendimento aos adolescentes do ensino fundamental, anos finais (8º e 9º anos) em alternância”.

“A perspectiva é atender as escolas do campo que solicitaram a implementação do Projeto. São oito escolas de Ensino Fundamental a partir de 2020 e ampliação para o ano de 2022, com a adesão de mais três escolas de Ensino Fundamental. No Ensino Médio foram duas escolas que aderiram em 2018 e a perspectiva de mais duas para o ano de 2022”, explicou Helena.

Helena informou que “os investimentos são em contratação de profissionais para compor uma equipe junto à direção da escola e aquisição de materiais e insumos específicos para o desenvolvimento do Projeto. E contempla a formação continuada para todos os profissionais das escolas envolvidas”.

Quanto aos resultados esperados Helena disse que “são de manter o estudante da Escola do Campo no campo, com a possibilidade de ampliar sua cidadania e autonomia. Contribuir para a manutenção da agricultura familiar, com renda digna e com qualidade de vida”.

Estudantes trabalhando na horta da EEF Roberto Heinzen – Foto: Arquivo da escola
Diretor da EEF Roberto Heinzen, Valcir Gislon e Patrícia Anderle Schreiber, da Coordenadoria Regional de Taió – Foto: Aurio Gislon

DEPOIMENTOS DE ALUNOS DA ESCOLA DO CAMPO DE SANTA MARGARIDA

“É preciso planejar o futuro para não errar”, Érica Jarosz.

“O Programa nos faz pensar num projeto de vida, com estudos orientados, com textos e muita pesquisa”, Keila Fuechter.

“Temos o Caderno de Síntese, para organizar o nosso dia a dia, do tempo em alternância”, Tiago de Souza Alves.

“No Caderno da Realidade nós organizamos e finalizamos o trabalho sobre o estudo do tema gerador”, Anderson Kaleski.

Temos nossa horta, estudamos e pesquisamos  para que ela tenha uma boa produção”, Cauan Correa.

SONHO REALIZADO

O professor Valcir Gislon assumiu a direção da escola em 2015 sonhando em trabalhar com o Projeto Escola do Campo, com essa pedagogia da alternância. No ano de 2020 foi difícil implementar o Projeto na escola em Santa Margarida por causa da pandemia e a necessidade de ensino remoto. No entanto, com o avanço da vacinação de controle da Covid-19, essa realidade vem mudando. Hoje a escola está consolidada no Programa e não tem mais risco de ser nucleada, por exemplo.

“É um prazer muito grande estar trabalhando neste Projeto. Sou de família de agricultores e acredito na agricultura familiar, no potencial dos alunos e de suas famílias de se desenvolverem e serem felizes no campo”, afirmou Valcir.

 “Trabalho por uma educação de qualidade e pela permanência dos jovens no campo”, finalizou.

Clique aqui para conhecer a história da Escola de Santa Margarida.

Por Aurio Gislon, jornalista socioambiental

Galeria de fotos

EEF Roberto Heinzen – Foto: Aurio Gislon
Horta da EEF Roberto Heinzen – Foto: Aurio Gislon
Reunião pedagógica com estudantes, professores e direção, com a presença de Patrícia Anderle Schreiber, na Escola do Campo Pedagogia da Alternância na EEF Roberto Heinzen – Foto: Aurio Gislon
Reunião pedagógica da Escola do Campo Pedagogia da Alternância na EEF Roberto Heinzen – Foto: Aurio Gislon
Compostagem e minhocário da EEF Roberto Heinzen – Foto: Aurio Gislon
Entrega de minhocas Califórnia e orientação sobre o minhocário realizada pela agrônoma Daniela Suelin Waiszyk, de camisa roxa, com a aluna Adresa e a Orientadora Monica de Oliveira – Foto: Bruna Eduarda Schmitz
Horta da EEF Roberto Heinzen – Foto: Aurio Gislon
Horta da EEF Roberto Heinzen – Foto: Aurio Gislon
Agrofloresta sendo implantada na EEF Roberto Heinzen – Foto: Aurio Gislon
Estudantes da Escola do Campo de Santa Margarida plantando árvores e aprendendo a cuidar da natureza – Foto: Arquivo da escola
Visita de estudo na propriedade de Ronaldo Jarozs, na comunidade de Taiozinho, em Rio do Campo. Foto: Arquivo da escola
Visita de estudo na propriedade de Ronaldo Jarozs, na comunidade de Taiozinho, em Rio do Campo. Foto: Arquivo da escola