Imagem aérea do Marielle Vive destaca a horta coletiva mandala (Foto: Julio Matos)

Pedro Stropasolas BdF / JAV

Sistema composto por canteiros em forma circular. No centro, tanque com peixes fertiliza a água para a irrigação das diversas plantas. Tudo produzido sem nenhum insumo externo.

Essa é chave do bom funcionamento da horta mandala, modelo promissor de produção agroecológica que hoje se expande pelo Brasil.

Aprender a igualdade da vida, lutar junto, comunidade, solidariedade, isso faz parte da agroecologia

No acampamento Marielle Vive, em Valinhos, interior de São Paulo, a mandala é símbolo do trabalho coletivo e do compromisso de 700 famílias do Movimento Rural Sem Terra (MST) com a alimentação saudável. 

Suely Moreira, que é acampada e coordena o setor de produção do Marielle Vive, afirma que o espaço funciona como uma grande escola de conhecimentos agroecológicos.

“A gente aprende a igualdade da vida, lutar junto, comunidade, solidariedade, isso faz parte da agroecologia. E a partir daí, a gente aprende que o coletivo fortalece. E nós como classe mais humilde precisamos ser fortes para passar por esses momentos difíceis”, declara.

A agricultora ressalta ainda a importância da tecnologia social para a segurança alimentar. 

“Aí entra o papel primordial da mandala. Como ensinar nosso povo a ser auto suficiente na alimentação. É um passo lento, mas a gente luta para trazer isso para nossa comunidade”, completa a agricultora, reforçando que tudo que é cultivado na mandala é fertilizado por um composto de ortigas, troncos de banana, esterco fresco e leite.

Com 1000 metros quadrados, a mandala do Marielle Vive foi construída em parceria com organizações, instituições de ensino, movimentos sociais, por meio de mutirão organizado pelas famílias logo após a ocupação da área, em 14 de abril de 2018. O lugar escolhido para a horta: o antigo campo de futebol. 

Hoje, o acampamento é organizado por 33 núcleos de famílias, que se revezam na manutenção do espaço.

“Todos os dias é um núcleo que está aqui na mandala, compartilhar deste momento. que não é um momento só de ajudar, é um momento de aprendizado, é um momento também de formação política, porque também saber como se planta, saber qual o alimento a gente está comendo e como é produzido, também faz parte de um processo político”, aponta Kelvin Nicolas, da coordenação do acampamento. 

O Marielle Vive foi criado um mês após o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, no Rio de Janeiro.  A terra de 130 hectares, que hoje se recupera pelos princípios agroecológicos, está ameaçada de ser tomada pelo concreto da especulação imobiliária. Uma decisão judicial em segunda instância pode ordenar o despejo das 700 famílias a qualquer momento.

Mandala no semiárido

No semiárido cearense, a tecnologia social das mandalas vem se adaptando ao clima e ao uso irregular da terra, que muitas vezes resulta na desertificação.

Ricardo Vasconcelos, do IAC (Instituto Antônio Conselheiro) explica a importância da tecnologia na convivência com o semiárido. 

“Quando a gente pensa em benefícios da Mandala para a agricultura familiar, de forma socioeconômica, de forma bem resumida a gente pode pensar em três. Um é essa independência das famílias de insumos externos, de conseguir fazer essa ciclagem de insumos dentro do subsistema. O outro seria o da segurança alimentar, pela diversidade de produtos que são produzidos na Mandala e pela continuidade dessa produção. E o três, seria o aumento de renda, pela venda do excedente”, explica Vasconcelos, do Instituto Antônio Conselheiro (IAC), organização que assessora pequenos agricultores com processos agroecológicos.

A produção que sobra nas mandalas no semiárido do Ceará é comercializada em feiras agroecológicas e também pelos programas institucionais de compras de alimentos. 

Alimentação saudável

No Marielle Vive, o propósito central da mandala hoje está em garantir a alimentação das próprias famílias. São as verduras e frutas colhidas na horta que abastecem os pratos servidos diariamente na cozinha coletiva do acampamento, em um dos momentos mais difíceis da crise socioeconômica e sanitária do país. 

“É um momento difícil onde está faltando matéria prima no mercado, até isso né. Então a gente já tem praticamente muita coisa aqui que consegue manter a gente né. Então nesse momento de pandemia, está sendo muito essencial, porque está faltando até alimento”, revela o agricultor Luis Adriano, sobre o papel primordial da mandala para as 700 famílias sem terra.

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