Por Fernando Brito – Tijolaço/ JAV

Cinco dias atrás, Jair Bolsonaro recomendou aos que dizem que a vacinação no Brasil anda se arrastando por falta de imunizantes que fossem “comprar vacina na casa de tua mãe“.

Hoje, o secretário-executivo do Ministério da saúde, o coronel (claro!) Élcio Franco enviou uma carta ao embaixador Yang Wanming praticamente implorando 30 milhões da vacina da Sinopharm – diferente da Sinovac, integrada ao Butantan – porque a campanha de vacinação, aqui, “corre risco de ser interrompida por falta de doses, dada a escassez da oferta internacional.”

Não dá para ter muitas dúvidas de que a China, se tiver estas vacinas disponíveis – o mundo inteiro as quer – vá fornecê-las ao Brasil.

Por cooperação humanitária, por simpatia política que deseja angariar e, sobretudo, porque lhe é um bom negócio vender (embora uma venda de valor pouco expressivo, na casa de US$ 200 milhões) e a China não faz comércio ideológico, mas faz do comércio uma ferramenta de sua política externa.

Só o Brasil não percebe o tamanho do Brasil e o quanto nosso país é importante na geopolítica mundial. Ou alguém acha que os chineses fizeram de João Doria a cabeça-de-ponte para a entrada com vacinas no Brasil porque, como diz Bolsonaro, gostaram de suas calças apertadas?

É claro que o negócio com o Butantan, de São Paulo, foi monitorado e apoiado pelo governo central da China porque a eles interessava plantar um pé próprio – e não apenas como fornecedor de insumos farmacêuticos – no Brasil.

Mas isso não os faz esquecer o “não vamos comprar vacina da China” de Jair Bolsonaro, nem do “a china espalhou o vírus” de Ernesto Araújo e Eduardo Bolsonaro. Vão cobrar um preço político-comercial e vender-nos dez ou vinte vezes mais em tecnologia de telecomunicações, pode anotar.

O que, aliás, nada tem de ruim, mas é algo que deveria – se tivéssemos governo – ser acompanhado de instalação de plantas locais e de alguma capacidade de absorção de tecnologia e na criação de plataformas locais de exportação para países da África e da América Latina que temos (ou tínhamos, até que nos desmontassem) condições de montar aqui.

A China é o fornecedor de 80% das vacinas do pouco que temos, não como promessa, mas como realidade. Um governo não imbecil teria feito do Brasil a vitrine mundial da eficácia das vacinas chinesas e as estaria produzindo localmente, em lugar de ter se metido num negócio desastroso com a multinacional Astrazêneca, que não cumpre contratos nem aqui e nem na União Europeia. Deslumbrado com o rótulo “de Oxford” em sua vacina, arrastou a Fiocruz para um desastre que só mesmo a sólida folha corrida de serviços da instituição está evitando que seja escandaloso.

Podem vir as vacinas que o Brasil pediu à China, mas não será por um apelo do coronel Élcio Franco. O pedido terá de subir de nível, e muito.

Não é difícil e não dói.

Afinal, não agradecemos a Donald Trump pelos dois milhões de comprimidos de cloroquina que estão nos almoxarifados do Ministério da Saúde, encalhados e inúteis?