Um ato ecumênico na manhã da terça-feira 9, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) homenageou o ex-aluno e professor Marcondes Namblá, 36 anos. Familiares, amigos, colegas e professores exigem justiça pelo assassinato do índio Xokleng.  Marcondes se formou na UFSC em abril de 2015 e desenvolvia atividades de ensino na escola Laklãnõ. Ele foi morto a pauladas na praia de Penha, Norte do Estado.

O crime ocorreu na madrugada do dia 1º, e a morte dia 2, no hospital. Identificado por imagens de câmeras e tendo assumido a autoria para testemunhas, Gilmar César de Lima, o Gil, 23 anos, teve a prisão preventiva decretada. Mas 10 dias depois do crime ainda não foi localizado pela polícia catarinense.

Na segunda-feira, lideranças indígenas estiveram na sede do Ministério Público Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. O grupo pede que a Polícia Federal também investigue o caso. Os Xokleng não aceitam a versão de que o crime ocorreu por motivo fútil (desentendimento por causa do cachorro do homicida) e sugerem que a morte do professor, reconhecido como uma das principais lideranças, tenha outra motivação. A expectativa é de que na sexta-feira 12, o procurador-chefe do Ministério Público em Santa Catarina, Darlan Dias, esteja na área de José Boiteux para ouvir indígenas.

— A gente não entende que tenha sido um crime à toa, que o matador estivesse ali por acaso com seu cachorro e decidido dar pauladas em Marcondes. Se foi assim mesmo, que a polícia prove e se faça justiça— disse o cacique presidente Tucun Grakan.

Orientadora de Marcondes na Licenciatura, Antonella Tessinari lembrou que, pouco antes do Natal, ele entrou em contato para buscar referências bibliográficas para fazer seu projeto de mestrado. “A gente sempre quer que os alunos nos superem, e era isto que vinha fazendo. Ele usou teorias e correntes teóricas para mostrar a importância do banho de rio para as crianças. Isto não estava na agenda científica, mas com sua criatividade, ele mostrou algo de novo.”

Durante o ato, o reitor em exercício da UFSC, Alexandre Marino, entregou um documento à família, um louvor a Marcondes, recebido por Nanblá Gakran, professor da Licenciatura Intercultural e primo do falecido.

— O trabalho dele, de preservação da cultura e história, vai permanecer — disse Gakran.

Ao final do evento, a orientadora fez uma homenagem em que lembrou dos tempos de sala de aula com os alunos: por três vezes chamou o nome Marcondes Namblá. A cada chamada, os cerca de 120 presentes respondiam:

— Presente.

Ato cerimonial previsto para esta quarta-feira no local do crime

Novo ato está previsto para esta quarta-feira 10. Alunos do curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, da UFSC, estão mobilizados na organização de um ato cerimonial e um protesto ao assassinato de Marcondes. A manifestação será, às 14h, no local onde o indígena foi morto (Avenida Eugênio Krause). O evento tem apoio de outras etnias além do povo Laklãnõ-Xokleng, como Guarani e Kaingang.

DC – Ângela Bastos