Crises sanitária e hídrica são faces da exploração do meio ambiente, diz pesquisador

Tanto a covid-19 no mundo quanto o fenômeno da geosmina* no Rio de Janeiro não podem ser vistos de forma dissociada

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O manejo exploratório dos recursos naturais torna as populações mais vulneráveis ao que chamamos de doenças emergentes (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Por Ana Paula Evangelista e Caroline Oliveira – BdF / JAV

“Proteger a natureza e os rios é proteger as populações humanas”

Nas palavras de Alexandre Pessoa, engenheiro sanitarista e professor-pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fundação Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz), a crise sanitária decorrente da pandemia de covid-19 e a crise hídrica são algumas das faces da crise ambiental que o mundo vive. 

No Brasil, essa crise do meio ambiente é representada pelos “grandes impactos socioambientais decorrentes de desmatamento, garimpo ilegal na Amazônia, o tráfico de animais, os incêndios no Pantanal, e mesmo o avanço das monoculturas que são hidro intensivas, consomem muita água e poluem o ambiente com a utilização ampla de agrotóxicos”, como aponta Pessoa.

Crise sanitária 

Ainda em 2016, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) apontou os surtos de doenças transmitidas entre animais e seres humanos, conhecidas como doenças zoonóticas, como uma doença global. De fato, a cada três doenças infecciosas que surgem anualmente, 75% são zoonóticas. Um exemplo é a covid-19. 

Com a degradação do meio ambiente e das barreiras naturais de proteção entre animais e seres humanos, a transmissão entre ambos se faz mais presente. Foi isso que possibilitou o surgimento da SARS-CoV-2 da forma como se apresentou aos seres humanos. 

Segundo Pessoa, o manejo exploratório dos recursos naturais “torna as populações mais vulneráveis ao que chamamos de doenças emergentes, são as novas doenças. Inclusive, aumenta os riscos de futuras epidemias decorrentes da maior circulação de vírus silvestres”. 

Crise hídrica

Outra faceta da crise ambiental é a crise hídrica, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos. No Brasil, o cenário vivido pelos cariocas é o que melhor representa, de acordo com Pessoa, a crise hídrica quando o assunto é qualidade, devido à concentração de geosmina no Rio Guandu, que fornece a maior parcela de água para a população do Rio de Janeiro. 

Um boletim da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) mostrou que a concentração de geosmina na água tratada do Guandu bateu o recorde deste ano. “A causa da geosmina, como é sabido, é decorrente da proliferação acelerada de cianobactérias, que produzem diversos metabólitos, substâncias que vão para os mananciais e conferem gosto e odor”, afirma o pesquisador. Por sua vez, as cianobactérias se proliferam em ambientes aquáticos poluídos por esgotos e efluentes industriais. 

“Proteger a natureza e os rios é proteger as populações humanas. A constituição diz que a saúde é direito de todos e dever do Estado. Portanto, diante da covid e da insegurança hídrica, é função do Estado promover a proteção social, porque as mortes são evitáveis”, conclui Pessoa.

* Geosmina – É um composto orgânico produzido por microrganismos presentes no solo, como bactérias e fungos, ou na água, como as cianobactérias. No solo, a geosmina pode ser liberada após uma chuva breve. É justamente esta liberação que está associada ao que costumamos chamar de cheiro de “terra molhada”. Já no ambiente aquático, a liberação da geosmina está associada à alteração do gosto e do odor da água, que causa desconforto para o consumo. Além da geosmina, o MIB (2-metilisoborneol) é outro composto produzido por estes microrganismos que também pode causar alteração de odor e de sabor na água.

A geosmina em si não é prejudicial à saúde humana nas concentrações em que normalmente é encontrada na natureza. O que precisa ser considerado como um problema em potencial é o fato de que as cianobactérias presentes na água, que produzem a geosmina, também podem produzir uma série de outros metabólitos capazes de exercer efeitos tóxicos em animais e em humanos.

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