O Brasil tem um governo com postura anticientífica (Foto: Divulgação)

Por Lucas Vasques – Revista Fórum / JAV

O período da ditadura militar perseguiu, torturou e matou cientistas e pesquisadores, usando sempre o argumento de combate à subversão. No entanto, na avaliação do historiador Rodrigo Perez Oliveira, hoje, em relação ao ataque à Ciência, a situação ainda é mais grave do que era na década de 70.

O ponto de partida da análise de Oliveira é o chamado “Massacre de Manguinhos”. No dia 1º de abril de 1970, o governo militar cassou dez importantes cientistas, que atuavam na Fiocruz, na época chamada de Instituto Oswaldo Cruz (IOC).

Com base no AI-5, eles tiveram seus direitos políticos suspensos e foram impedidos de trabalhar no Instituto Oswaldo Cruz ou em qualquer outro órgão federal.

Apesar da intensa perseguição dos governos militares aos pesquisadores e cientistas, Oliveira não acredita na tese de que a história se repete.

“Hoje, ainda é senso comum dizer que a história se repete, mas nos tempos modernos, marcados pela aceleração do tempo, por eventos históricos singulares, por eventos de ruptura, me parece que a ideia de que a história se repete não faz muito sentido”, analisa Oliveira, que é professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia.

Para ele, há profundas diferenças entre o “Massacre de Manguinhos”, durante a ditadura militar, e o negacionismo e a postura anticientífica do governo de Jair Bolsonaro. “Não são a mesma coisa. Muitas vezes na superfície desses eventos pode sinalizar para alguma repetição. Mas são coisas substancialmente distintas”.

Guerra Fria

Na opinião de Oliveira, durante a ditadura militar, a perseguição à Ciência, aos professores universitários, aos pesquisadores, era muito marcada pela lógica da Guerra Fria, da perseguição a aqueles que o regime entendia como sendo subversivos.

“O conceito de subversão era elástico o bastante para poder ‘legitimar’ perseguição, censura, tortura e morte, a partir do enquadramento na Lei de Segurança Nacional”, relembra.

O historiador faz questão de ressaltar que não se trata de elogiar o regime militar. “São os fatos. A ditadura não foi exatamente anticientificista. Marco bem isso porque hoje estamos em um momento ainda pior”, reforça.

“A ditadura militar, especialmente no governo de Ernesto Geisel, tinha projeto para a universidade e à ciência brasileira, muito atrelado a agenda de desenvolvimento nacional independente. Em 1975, o governo Geisel lançou o I Plano Nacional de Pós-Graduação, que, basicamente, fundou a estrutura e pesquisa científica universitária que nós temos hoje, baseadas nos programas de pós-graduação, cursos de mestrado, doutorado, incentivo à pesquisa”, relata.

Mesmo com perseguição a cientistas e pesquisadores, na avaliação do historiador, “não havia uma negação à Ciência. Hoje, sim. Nós temos um governo com postura anticientífica, que até em uma agenda de ataque à soberania nacional, não ataca apenas os pesquisadores. Ataca a Ciência, ataca instituições. Ele tem uma agenda para desacreditar instituições científicas prestigiadas no mundo inteiro diante da opinião pública”, destaca.

“Hoje, por mais que o governo mantenha essa narrativa anticomunista, o anticientificismo é de outra ordem. Não tem a ver apenas, não que isso fosse pouco, com a perseguição de professores e pesquisadores acusados de oposição ao governo. Ele tem o interesse de desacreditar todo o legado filosófico da ciência cartesiana”, enfatiza Oliveira.

Nessa questão, ele menciona o papel do “guru” intelectual do governo Bolsonaro. “É exatamente essa a função do Olavo de Carvalho. É a negação do próprio paradigma cartesiano científico, baseado no distanciamento crítico, no método, na objetividade, partindo da premissa de que há uma verdadeira conspiração globalista, que envolve universidades, imprensa, cientistas”.

Oliveira marca bem as diferenças. “A ditadura não desmontou a universidade brasileira. A estrutura de pesquisa que nós temos hoje, entre outras coisas, é, inclusive, produto de políticas públicas desenvolvidas pela ditadura militar, especialmente três PNPGs (Planos Nacionais de Pós-Graduação), que, ao longo da década de 70 e 80, foram arquitetando a universidade e a estrutura da Ciência brasileira tal como nós temos hoje”.

A história não se repete

O historiador é frontalmente contrário à ideia de que a história se repete. “Durante muito tempo, da Antiguidade até o século XVIII, na cultura intelectual ocidental, havia esse lugar comum que afirmava que a história se repetia. Bom, se a história se repetia, estudar história seria capaz de nos ensinar como agir à luz de exemplos passados”, destaca.

“Tanto é que um historiador e filósofo romano chamado Cícero cunhou, ainda na Antiguidade, uma máxima retórica, que ficou muito influente na cultura ocidental: A história é mestra da vida. Porém, o século XVIII e a Modernidade, com novas concepções de tempo, esvaziaram essa ideia”, acrescenta Oliveira.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Digite seu comentário!
Digite seu nome aqui