Humanidade na encruzilhada: ‘Os sistemas vivos estão sendo comprometidos’, alerta ONU

Ser humano acelera a extinção de animais de forma entre 1.000 e 10.000 vezes mais veloz do que a natural. O comprometimento da vida na terra pode levar à extinção do causador: o homem

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Brasil é exemplo abaixo das piores expectativas. Incêndios em níveis acima de 188% da média em locais como Pantanal e Amazônia, e o descaso absoluto do governo Jair Bolsonaro (Foto: Guarda Nacional pelo major Leslie Reed)

RBA / JAV

O método de produção capitalista mostra cada vez mais claros sinais de fracasso em relação às questões ambientais. Ao agir como se não fosse parte da natureza, o ser humano coloca em xeque, também, sua própria existência. É o que aponta mais novo relatório da Organização das Nações Unidas (Panorama da Biodiversidade Global, GBO-5). O GBO-5 da ONU alerta para a extinção em massa provocada pela sociedade como é organizada. ”Os sistemas vivos da Terra como um todo estão sendo comprometidos. E quanto mais a humanidade explora a natureza de maneiras insustentáveis e prejudica suas contribuições para as pessoas, mais prejudicamos nosso próprio bem-estar, segurança e prosperidade”, disse a diretora-executiva da Convenção das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica (CBD), Elizabeth Maruma Mrema.

O resultado do GBO-5 da ONU, publicado na última semana, aponta para que, mesmo com discursos bonitos de empresas que afirmam que trabalham para “zerar o carbono”, o mundo está, de fato, piorando. De 20 metas estabelecidas em 2010, em 13 delas a humanidade está mais distante do que nunca de alcançar.

Devastação de formas de vida

A velocidade com que o ser humano extingue espécies de animais se aproxima de um cenário apocalíptico. Algo semelhante a algumas das grandes extinções já estudadas na história terrestre. De acordo com a ONG internacional WWF, o ser humano acelera a extinção de animais de forma entre 1.000 e 10.000 vezes mais veloz do que a natural.

“As decisões e o nível de ação que tomamos agora terão profundas consequências – para o bem ou para o mal – para todas as espécies, incluindo a nossa”, afirma Mrena. E a realidade mostra que as decisões estão mais apontadas para o mal. O Brasil é um exemplo abaixo das piores expectativas. Incêndios em níveis acima de 188% da média em locais como Pantanal e Amazônia, e o descaso absoluto do governo do presidente Jair Bolsonaro.

Diante do cenário de calamidade, o GBO-5 da ONU propõe um novo acordo, com meta para 2050, entre as nações para frear a extinção em massa de formas de vida na Terra. “O GBO-5 destaca que a ação pela biodiversidade é essencial para lidar com as mudanças climáticas, segurança alimentar e saúde em longo prazo. O momento de agir em todas essas questões é agora: a comunidade global deve aproveitar a oportunidade para se reconstruir melhor da pandemia da COVID-19 a fim de reduzir o risco de futuras pandemias”, relata, em nota, a ONU.

Números do GBO-5 da ONU

Apenas 33% das pessoas que vivem nos países com maior biodiversidade têm alta consciência tanto dos valores da biodiversidade quanto das etapas necessárias para sua conservação e uso sustentável.

91 países aplicam padrões globais para integração do meio ambiente na contabilidade nacional – quase o dobro do número de 2006. Mas ainda menos da metade dos 193 países que integra as Nações Unidas.

US$ 500 bilhões correspondem à soma dos subsídios governamentais que potencialmente causam danos ambientais. Algo próximo de 1% do PIB mundial.

Precisaríamos de mais 1,7 “planeta Terra” para repor os recursos biológicos usados pela humanidade entre 2011 e 2016

33% Redução nas taxas globais de desmatamento comparando os últimos cinco anos com as taxas da década até 2010.

66% Proporção de populações de peixes marinhos em 2017 capturados em níveis biologicamente sustentáveis, em comparação com 71% em 2010, com uma grande variação entre regiões e populações.

163 milhões Número de fazendas praticando intensificação sustentável (29% do total mundial).

453 milhões de hectares de terras agrícolas (9% do total mundial).

260.000 toneladas Peso das 5,25 trilhões de partículas de plástico estimadas nos oceanos do mundo.

~ 200 Erradicação de mamíferos invasores nas ilhas desde 2010, beneficiando cerca de 236 espécies terrestres nativas, incluindo 100 espécies altamente ameaçadas de pássaros, mamíferos e répteis, como a raposa da ilha e o pássaro Seychelles Copsychus sechellarum.

+ 60% Proporção dos recifes de coral do mundo que estão ameaçados, especialmente devido à sobrepesca e à pesca destrutiva.

43% Área das principais áreas de biodiversidade cobertas por áreas protegidas, contra 29% em 2000.

28-48 Número estimado de espécies de aves e mamíferos cuja extinção foi evitada por meio de ações de conservação desde 1993, quando a CDB entrou em vigor, incluindo 11-25 espécies desde 2010.

1.940 Número de raças locais de animais domésticos consideradas em risco de extinção, de um total de 7.155. Outras 4.668 raças estão em status de risco desconhecido.

164 Número de países que reconhecem explicitamente os direitos das mulheres de possuir, usar, tomar decisões e usar a terra como garantia para empréstimos em igualdade de condições com os homens.

27 milhões de hectares de terras em atividades de restauração: apenas 2% do potencial estimado.

125 Número de Partes do Protocolo de Nagoya sobre Acesso a Recursos Genéticos e Repartição Justa e Eqüitativa de Benefícios. 87 Partes têm medidas de “acesso e repartição de benefícios” em vigor e estabeleceram autoridades nacionais competentes.

69 Número de países com Estratégias Nacionais de Biodiversidade e Planos de Ação (NBSAP) adotados como instrumentos de política governamental.

40 Número de Partes que envolveram comunidades indígenas e locais na preparação de seus NBSAPs.

1,4 bilhão Número de registros de presença de espécies que podem ser acessados gratuitamente por meio do Global Biodiversity Information Infrastructure (GBIF), sete vezes mais do que na última década.

US$ 9,3 bilhões Valor total do financiamento público internacional anual para a biodiversidade – o dobro da década anterior, dos quais US$ 3,9 bilhões têm a biodiversidade como foco principal.

 

Com informações das Nações Unidas

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