Tereza Cristina, da Agricultura, sabota guia alimentar saudável do próprio governo e faz lobby por alimentos ultraprocessados

Chefiado por Tereza Cristina, o Ministério da Agricultura enviou uma nota à pasta da Saúde na tentativa de desqualificar o Guia Alimentar para a População Brasileira. Aline de Piano Ganen, coordenadora do mestrado em nutrição do Centro Universitário São Camilo, aponta "interesse políticos". Núcleo de pesquisas da USP criticou a medida

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Tereza Cristina (Foto: Marcos Correa/PR | Reprodução)

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Chefiado por Tereza Cristina, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) enviou uma nota técnica ao Ministério da Saúde, comandado pelo general Eduardo Pazuello, na tentativa de desqualificar e reformular o Guia Alimentar para a População Brasileira, elogiado por cientistas e profissionais de saúde de várias partes do mundo. 

O guia, que teve a sua última edição publicada em 2014, orienta a escolha de alimentos com base na chamada classificação Nova, ou seja, de acordo com o nível de processamento. Quanto mais processados, mais devem ser evitados, aponta a orientação do guia, que conta com endosso de entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Para o Mapa, “o guia brasileiro é considerado um dos piores ..[e] a recomendação mais forte nesse momento é a imediata retirada das menções a classificação Nova no atual guia alimentar”. O relato foi publicado em reportagem do jornal Folha de S.Paulo. 

Entre os exemplos de alimentos ultraprocessados estão biscoitos industrializados, refrigerantes, salgadinhos de pacote e alimentos prontos congelados. 

O documento do Mapa afirmou que a análise do Guia “revela uma necessidade de urgente de sua revisão”.

“Embora declare ser importante ampliar a autonomia, o Guia induz a população brasileira a uma limitação […] das escolhas alimentares. Quando um documento oficial do Governo Brasileiro orienta ‘evite alimentos ultraprocessados’, está generalizando algo que é muito diversificado […] existem alimentos que são classificados nesta ‘categoria ultraprocessados’ e que são feitos industrialmente de forma semelhante a preparações culinárias caseiras”, disse. 

“O Guia não orienta que o uso apenas de alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias em consumo excessivo está associado a doenças do coração, obesidade e outras doenças crônicas, de forma semelhante às outras categorias de alimentos”, acrescentou. 

Núcleo de pesquisas critica o Mapa

Em resposta à nota técnica, o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), da USP, protagonista na construção do Guia,  criticou a nota técnica e defende a classificação Nova.

“Além de amparar todas as suas afirmações sobre a suposta incoerência da classificação Nova e sobre a suposta inocuidade dos alimentos ultraprocessados em duas referências que não se referem à classificação e não avaliam alimentos ultraprocessados, a nota técnica omite a vasta literatura científica nacional e internacional acumulada desde 2009, quando a classificação e o conceito de alimentos ultraprocessados foram propostos pelo Nupens/USP”, disseram. 

Sobre a menção de o guia brasileiro ser considerado um dos piores do mundo, o Nupens afirmou que “assim não pensam organismos técnicos das Nações Unidas, como a FAO, a OMS e o Unicef, que consideram o Guia brasileiro um exemplo a ser seguido”. “Assim não pensam os Ministérios da Saúde do Canadá, da França, do Uruguai, do Peru e do Equador, que têm seus guias alimentares e suas políticas de alimentação e nutrição inspirados no Brasil”, complementou.

De acordo com Aline de Piano Ganen, coordenadora do mestrado em nutrição do Centro Universitário São Camilo, “o que é posto na nota técnica com certeza tem notas de interesse políticos e de outros setores”. “É preciso ter muita cautela”, ponderou.

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