O Brasil morreu! Antes ele do que eu! Com a palavra, os canalhas

Na verdade, todos nós morremos quando permitimos que essa irracionalidade ferina nos possuísse. Na loucura crua, ninguém se salva na barca do inferno, nem as vítimas do ódio, tampouco os carrascos beatos auriverdes

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Bolsonaristas agridem enfermeiros em frente ao Palácio do Planalto (Foto: Reprodução)

Por Henrique Rodrigues*

O diálogo poderia ser ouvido em qualquer balcão úmido e pouco asseado de um boteco país a fora, ou num enferrujado ponto de ônibus. O fato é irrefutável, não cabe muita contestação.

“Cara, tá sabendo? O Brasil morreu!” Pois é, morreu. E foi de morte matada. Foi na ponta do fuzil, no fio lâmina.

Eu não sei exatamente como isso tudo aconteceu, mas aproveito a ocasião para parafrasear o imortal Chicó, de Ariano Suassuna, no seu ‘Auto da Compadecida’. Eu não sei, só sei que foi assim.

A grande verdade é que a gente sabe, mas dá uma preguiça danada ficar repetindo e relembrando nossos últimos momentos como nação minimamente digna. Isso pra não falar do sofrimento que é rever o Brasil definhar até essa morte horrível, tombado no chão, na poeira da rua, agonizando.

E aquelas enfermeiras em silêncio, carregando cruzes para homenagear os colegas, sendo agredidas por um grupo de desvairados berrando como cães, hein? Que desespero.

E os jornalistas trêmulos, assustados, sendo linchados por uma multidão sequiosa por sangue, na porta do Palácio do Planalto, aos olhos do presidente da República, que ri dissimuladamente.

E os professores xingados e humilhados, tratados como ratos pestilentos, como bruxos que enfeitiçam os jovens, filmados e constrangidos por uma sociedade doente e desajustada. Criaram até um disque-denúncia para delatarem a “doutrinação marxista”. O coitado do docente não consegue sequer ser respeitado pelos jovens em sala.

No fatídico horário de sempre, todas as tardes, o boletim informa os milhares de mortos pela epidemia. E daí?

O presidente posa sorridente, dando tiros de metralhadora ao lado de um alvo de papel. Ou então marca um chá da tarde, com carolinas açucaradas e macias ambrosias, para bater papo e gargalhar com o Major Curió, notório torturador da Ditadura Militar, classificado pelo Ministério Público Federal como assassino e responsável por gravíssimas violações aos Direitos Humanos.

As filas de carros, decorados com bandeiras e faixas, como das milícias somalis, se multiplicam de norte a sul. Aliás, já somos uma Somália. Mas como tudo que é brasileiro tem um toque próprio, não somos aquela Somália clássica, de horizonte ocre e ruas esfumaçadas, que serviu de cenário, cheia de ação, para o hollywoodiano ‘Black Hawk Down’.

Não, nada disso. O nosso inferno é diferente. Tem como pano de fundo uma espécie de normalidade institucional que nos envenenou e, hoje, decreta a morte do Brasil. Estamos completamente entregues aos canalhas. Tudo feito em nome de Deus, por uma turba em transe, certa de que são “os escolhidos”.

Sempre que vejo esses escombros espirituais, gozosos de sua maldade, lembro-me de uma entrevista de Adolfo Pérez Esquivel, vencedor do Nobel da Paz, contando que ao ser preso durante a mortífera Ditadura Militar Argentina, tirava forças de uma frase escrita na parede da cela imunda onde foi jogado: “Deus não mata.” Quem mata é o homem. Via de regra, o cidadão de bem.

Na verdade, todos nós morremos quando permitimos que essa irracionalidade ferina nos possuísse. Na loucura crua, ninguém se salva na barca do inferno, nem as vítimas do ódio, tampouco os carrascos beatos auriverdes.

O STF, borrando nas calças, resolve que a partir de agora não toma mais decisões contra o papagaio louro do bico dourado, “só se for do colegiado”, diz o sábio Marco Aurélio Mello. Sabe quando isso ocorrerá? Nunca! Há um medo imenso que o monstrengo limítrofe descumpra as determinações e mostre que a corte não tem mais poder algum.

No Congresso, os presidentes da Câmara e do Senado encenam um auto rocambolesco em que fingem ser a favor do diálogo com o celerado, porque no fundo, se fizerem qualquer outra coisa que não seja abaixar a cabeça, serão desobedecidos e atropelados pelo histrião asqueroso.

No mesmo dia em que nomeou o novo diretor da Polícia Federal (número 2 daquele que foi impedido de assumir e também próximo ao clã), o projeto mal-ajambrado de Júlio César da Barra da Tijuca já conseguiu o que queria. Trocou o superintendente da PF no Rio de Janeiro e estancou as investigações que por lá corriam e que, ao que tudo indica, levavam aos seus filhos.

Que morte horrível. Cercados por uma matilha enfurecida que estraçalha e esquarteja nossa incipiente democracia, que destroça os vestígios residuais civilizatórios que construímos até aqui com um esforço desgraçado.

Deveriam acabar de uma vez com essa fuleiragem, com essa tortura. É, sejam breves e suscintos. Vamos!

Acabem logo com esse circo, com essa conversa de comadre. Ajam como seus ídolos do passado.

Fuzilem-nos nos paredões dos cemitérios, como fizeram os carniceiros franquistas com os republicanos em Granada. Façam isso!

Lancem-nos de aviões sobre o mar, como fizeram Videla e Massera na Argentina. Enterrem-nos vivos na terra seca, como fez Pinochet.

Sigam em frente, destrambelhados! Mostrem quem são as bestas-feras que assassinam o Brasil. Seja lá o que façam, o Brasil nunca será lembrado no mundo pelo que essa gente representa, mas sim pelo que nós somos. E especialmente pelo quanto lutamos para mantê-lo vivo até onde foi possível, ao contrário da sanha homicida que lhes sobe à cabeça.

É hora de estufar o peito e soltar o grito: “O Brasil morreu! Antes ele do que eu!”. O egoísmo nojento dos cabotinos não permite interpretar outra coisa, já que seu senso de autopreservação doentio preferiu matar o Brasil para manter viva a insanidade que os alimenta.

*Henrique Rodrigues é jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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