Antes da quarentena, Patrícia Prete, que é costureira, trabalhava vendendo seus produtos em feiras livres. Hoje, para conseguir manter os seus compromissos econômicos, produz máscaras (Foto: Nelson Almeida/AFP)

Por Caroline Oliveira – BdF – JAV

As mulheres podem ser consideradas o grupo social mais afetado pela pandemia do novo coronavírus, quando o assunto é impacto econômico. Dentro desse grupo, é ainda maior o risco de vulnerabilidade de mulheres indígenas, negras e imigrantes. A análise é de Maria Fernanda Marcelino, que integra a Sempreviva Organização Feminista (SOF) e é apoiadora da Associação de Mulheres da Economia Solidária.

E por que isso? “Porque as mulheres são majoritariamente o grupo social que está em empregos mais precários e informais, ou aquelas que sobrevivem com até um salário mínimo, de aposentadoria, de trabalhos domésticos ou prestadoras de serviço”, explica Marcelino. 

Outro agravante: em geral, são as mulheres as chefes de famílias, isto é, as responsáveis pelo sustento de filhos e outros familiares, o que torna a sobrecarga da mulher mais “intensa” durante a quarentena. “Além de pensar na garantia de ter o que comer, ainda enfrentam a batalha de fazer a casa funcionar. Isso é uma tensão, um estresse”, conclui a integrante da SOF. 

Para Maria Fernanda Marcelino essa “é uma situação na beira do abismo”. “Se o governo não fizer algo imediatamente, nós vamos ter a pandemia ainda mais agravada por essa situação. É uma hecatombe o que se avizinha pra gente”. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) publicou no Diário Oficial da União de sexta-feira 3, a sanção do auxílio emergencial de até R$ 1.200,00 que beneficiará mulheres chefes de famílias. 

Violência contra as mulheres dentro de casa

Com a chegada da quarentena provocada pela pandemia, as mulheres também viram se esvair, em pouco tempo, a ideia de ter o lar como um ambiente de descanso, acolhimento e afeto. Essa pode ser uma das explicações para o aumento de violência doméstica desde que se iniciou o isolamento social. No Rio de Janeiro, por exemplo, houve um aumento de 50% nas denúncias de casos de violência doméstica.

Marcelino afirma que, em São Paulo, as mulheres que frequentam centros de atendimento e casas de apoio “estão desaparecidas, por conta do isolamento, mas também porque se acirra o cárcere, a privação de liberdade, de poder usar celular, de fazer qualquer movimento que coloque para fora a situação que ela está vivendo”. 

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2019 foram registrados 263.067 casos de lesão corporal dolosa e um caso de violência doméstica a cada dois minutos.

Em março de 2020, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um documento elencando as possíveis consequências, no âmbito da violência doméstica, da pandemia de covid-19. 

“[Os riscos] são maiores devido ao aumento das tensões em casa, e também podem aumentar o isolamento das mulheres. As sobreviventes da violência podem enfrentar obstáculos adicionais para fugir de situações violentas ou acessar ordens de proteção que salvam vidas e/ou serviços essenciais devido a fatores como restrições ao movimento em quarentena”, afirma a organização em um trecho do documento.

“Correndo dados na Internet, vemos que o número de roubos quase que zerou, assim como de assalto, mas o número de denúncias que classificam como brigas de casais, que a gente sabe que não é briga, é violência sexista, explodiu, por conta dessa situação”, afirma Maria Fernanda Marcelino. 

“Quando você tem um ambiente de violência, o que vai existir é um adoecimento ou agravamento de situações de sofrimento mental, depressão, angústia, pânico e de outras situações, porque onde era para você ter segurança é o lugar que você está mais vulnerável.”

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