O Avanço das Águas: Mar pode ‘engolir’ territórios de 22 cidades de Santa Catarina em 30 anos

Novo estudo sobre impactos das mudanças climáticas prevê inundações em cidades de todo o mundo, que podem afetar 300 milhões de pessoas até o final do século. Avanço do mar pode intensificar já em 2050, mesmo com o cumprimento do Acordo de Paris. Em Santa Catarina, rodovias, portos e bairros inteiros estão no curso das águas e autoridades projetam planos de contingência

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Regiões mais afetadas em SC segundo estudo (Foto: Climate Central/Reprodução/ND)

PESQUISA/TEXTO/EDIÇÃO: Beatriz Carrasco – ND – JAV

Aos 82 anos, seu Valmor ainda guarda na memória aquela primavera de 1961. Viu as fortes chuvas alimentarem a força do rio Tijucas, que arrastou tudo pela frente em fúria incontida: casas, vilas, animais, pessoas. Quando a água chegou ao município que dá nome ao rio, “toda a cidade ficou no fundo, inundada. Foi uma coisa de louco”. Seis pessoas morreram.

A relação com as águas sempre fez parte da realidade em Santa Catarina. E em 2050 – 28 anos antes das lembranças de seu Valmor -, pelo menos 22 cidades do Estado podem ser afetadas pela elevação do mar. 

O prognóstico faz parte de um estudo citado na Conferência sobre Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas – a COP25 -, que ocorreu neste mês em Madri, na Espanha. O evento reuniu especialistas e representantes de quase 200 países para discutir os desafios sobre os impactos das mudanças climáticas no mundo.

O estudo da Ong Climate Central foi divulgado pela revista científica Nature Communications, no final de outubro. A projeção foi feita com o cruzamento de pesquisas sobre impactos das alterações no clima com um sistema de mapeamento de alta resolução, que integra dados de batimetria (medição da profundidade dos oceanos) e topografia (características presentes na superfície de um território).

Formada por cientistas e pesquisadores de vários países, a organização afirma que, até 2100, a maré irá subir entre 0.6 centímetros a 2.1 metros – ‘engolindo’ cidades costeiras. Países como China, Bangladesh, Índia, Vietnã, Indonésia e Tailândia serão os mais atingidos em território, ainda que o Acordo de Paris, de 2015, seja cumprido.

A projeção é de que 300 milhões de pessoas em todo o mundo podem ser afetadas com os impactos das inundações. No Brasil, a população em risco soma 1 milhão de cidadãos. Estes números, no entanto, não levam em conta projetos de contingência das marés já em andamento – ou futuramente implementados -, que podem reduzir os estragos.

Municípios afetados em Santa Catarina

Na reportagem, o ND+ explorou o território catarinense em uma projeção do ano de 2050, sob o cenário de “poluição moderada”, que consiste em um aumento gradual da temperatura da Terra em até 2ºC, até o final do século. O índice é 0,5ºC acima do que foi estipulado durante o Acordo de Paris, quando 200 países se comprometeram em reduzir a emissão de gases do efeito estufa – substâncias como dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4).

Neste contexto, daqui a 30 anos os municípios com mais riscos de serem atingidos em Santa Catarina são: Joinville e São Francisco do Sul (Norte), Itajaí, Navegantes e Balneário Camboriú (Vale), Tijucas (Grande Florianópolis), Tubarão e Jaguaruna (Sul).

Em Florianópolis, as localidades mais afetadas – porém em dimensão menor em comparação aos outros municípios do Estado – são Daniela, Ribeirão da Ilha, Ponta das Canas, Praia Brava, Jurerê Tradicional, Costeira do Pirajubaé, Tapera, Solidão e Naufragados.

Trechos de importantes vias da Capital catarinense também aparecem no curso das águas: a Beira-Mar Norte (Avenida Jornalista Rubens de Arruda Ramos), a Via Expressa Sul (Rodovia Governador Aderbal Ramos da Silva), aterrada nos anos 1990 – ambas na região central -, e a Rodovia Baldicero Filomeno, no Sul da Ilha.

Grandes rodovias do Estado, como a BR-101 e a BR-280, têm diferentes pontos com risco de inundações em 2050, conforme a projeção. Portos catarinenses também podem ser afetados pelo avanço das águas. 

De rodovias a portos: Grandes estruturas em Santa Catarina podem ser atingidas pelo avanço do mar.

Novo estudo diminuiu margem de erro

A ferramenta, chamada CoastalDEM, utiliza redes neurais – um tipo de inteligência artificial – que atualizou e corrigiu dados de elevação do solo que, até agora, subestimavam as zonas costeiras sujeitas a inundações. Assim, o novo estudo triplicou as expectativas de aumento do nível do mar.

Até então, o antigo modelo se baseava na Missão Topográfica Radar Shuttle (SRTM, sigla em inglês), da Nasa. No entanto, a projeção fazia a medição sem distinguir diferentes níveis do solo – considerando árvores, imóveis e até topos de prédios como a própria superfície terrestre.

Como resultado, os estudos anteriores superestimaram as elevações costeiras em mais de dois metros em média, indicando falsa segurança contra inundações causadas pelo aumento do nível do mar. De acordo com o novo estudo, este erro médio foi reduzido para menos de dez centímetros. 

A ferramenta de rastreio de riscos costeiros leva em conta não só a meta estipulada no Acordo de Paris, mas também faz uma estimativa do futuro caso a poluição não seja freada. No cenário denominado como “poluição não controlada”, a temperatura aumentará entre 3ºC a 4ºC. Isso implicaria em 2.430 gigatoneladas de poluição de carbono até 2100, segundo o estudo.

Na tentativa de chamar a atenção para as consequências do aumento do nível do mar, a Climate Central criou vídeos de sobrevoo em cidades costeiras ao redor do mundo. As imagens para a produção das animações foram disponibilizadas pelo Google Earth e fazem a reprodução real das localidades em 3D. 

As projeções foram feitas a partir da previsão do aumento de temperatura da Terra de 4ºC ou 2ºC. Nos dois cenários, cidades podem ser afetadas, mas com impactos distintos. No Brasil, a instituição desenvolveu uma animação para o Rio de Janeiro. 

Poluição, degelo e desastres naturais

O mapeamento feito por software de geoprocessamento indica que a “elevação do nível do mar é provocada pela quantidade de poluição causada pelo aquecimento que a humanidade despeja na atmosfera, e a rapidez com que as camadas de gelo terrestres na Groenlândia, e especialmente na Antártica, se desestabilizam”. 

Conforme especialistas da Climate Central, no mundo inteiro os oceanos já elevaram cerca de 20 centímetros desde o fim do século 19, logo após o início da Revolução Industrial. 

Outro relatório que aponta as consequências da ação predatória do homem para o Planeta foi divulgado pela ONU em agosto. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), “as mudanças climáticas antropogênicas aumentaram a ocorrência de chuvas, ventos, e eventos extremos do nível do mar”.

Os pesquisadores afirmaram na ocasião que “as comunidades costeiras estão expostas a vários riscos relacionados ao clima, incluindo ciclones tropicais, níveis extremos do mar e inundações, ondas de calor marinhas, perda de gelo do mar e degelo”.

Além dos impactos sociais, a diversidade marinha também pode ser afetada com o aquecimento da água, ficando cada vez mais ácida e alterando todo seu ecossistema.

Segundo a Sociedade Americana de Meteorologia (AMS, na sigla em inglês), a emissão de gases de efeito estufa atingiu recorde em 2018. A concentração anual média global de CO2 foi de 407,4 partes por milhão (ppm) – 2,4 ppm acima do valor registrado em 2017. 

O levantamento do órgão norte-americano afirma, ainda, que 2018 foi o quarto ano mais quente, atrás de 2015, 2016 e 2017. No ano que passou, a temperatura média global da superfície foi de 0,30ºC a 0,40ºC acima do registrado entre 1981 e 2010.

Fonte: ND+

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