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O bolsonarismo tirou do armário a criminalização da ciência e a sacralização da burrice. Entenda-se por “burrice” não a falta de um saber específico, como separar sujeito e predicado com vírgula ou não ter ideia da raiz quadrada de quatro. Mas menosprezar o conhecimento, chegando a odiar quem o detém ou quem busca seu aprendizado, além de encarar preconceitos violentos como sabedoria. E, claro, acreditar que qualquer informação que não reafirme a sua crença pessoal é falsa.

Quando a burrice encontra pesquisas de opinião que não as afaga, como a do Datafolha, do domingo 8, o resultado é uma explosão de ignorância nas redes sociais. O que se viu não foram interpretações divergentes dos dados ou o questionamento da metodologia, mas ataques violentos aos números e sugestões de censura de sua divulgação. Afinal, não refletiam seu desejo pessoal.

Bolsonaro segue estagnado na faixa dos 30% de aprovação, de acordo com o instituto, enquanto a reprovação está em 36% – números que variaram dentro da margem de erro em relação ao último levantamento em agosto.

Mas para uma parcela ruidosa de seus seguidores, que acham que sua bolha representa o universo, Bolsonaro deveria estar marcando algo entre 60% e 70% de aprovação. Esses fiéis da igreja bolsonariana, ao lado de robôs e milícias digitais remuneradas, não aceitam a existência de qualquer fato que vá na direção contrária de sua crença. Até porque, em muitos casos, essa fé é a única coisa que restou a eles a partir do momento em que resolveram terceirizar sua capacidade de reflexão.

Aprenderam com o mestre, claro. Governantes costumam valorizar dados estatísticos para auxiliar em seu trabalho. Menos este.

Bolsonaro já afirmou que a metodologia de cálculo de desemprego do IBGE estava errada porque não concordava com ela. E bradou que tinha a “convicção” de que dados de desmatamento da Amazônia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais são “mentirosos”. O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, disse que as taxa de desmatamento eram manipuladas e infladas. Osmar Terra, do Ministério da Cidadania, disse não confiar em pesquisas da Fiocruz, instituição de renome internacional. O chanceler Ernesto Araújo não acredita em mudanças climáticas e afirmou que o aumento da média da temperatura global ocorreu porque estações de medição de temperatura que estavam no “mato” hoje estariam no “asfalto”. O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, menosprezou o questionário do Censo.

A mesma pesquisa Datafolha afirma que 80% da população desconfia do que vem da boca de Bolsonaro – 43% diz que nunca confia no que o presidente fala e 37% acha que suas declarações só merecem credibilidade às vezes. Do total, 19% diz acreditar sempre em Bolsonaro.

São esses 19% que lutam com unhas e dentes para mostrar que a economia já está uma maravilha, sendo que postos formais crescem lentamente enquanto abundam empregos sem direitos e gente que se vira vendendo comida na rua.

Para algumas pessoas, Jair é o comandante de um navio que guia o país pelos perigos de uma tormenta em direção a um porto seguro. Para outras, é um capitão inábil e incompetente que atrapalha a própria tripulação que tenta tirar o navio da tempestade. O local em que você está depende da sua ideologia, mas também de como está sua situação financeira.

Os segmentos que avaliam o governo como ótimo e bom, segundo do Datafolha, são homens, pessoas com ensino superior, brancos, evangélicos neopentecostais, moradores da região Sul, que ganham mais de cinco salários mínimos, empresários. Já os que avaliam o governo como ruim e péssimo são mulheres, jovens entre 16 e 24 anos, mais pobres, negros, desempregados, indígenas, moradores do Nordeste e adeptos de religião de matriz africana.

Que uma parte dos fãs de Bolsonaro sinta-se representada por cada bobagem que ele fale por ver nele alguém como eles no poder, faz parte. Ele nunca agiu como presidente da República, mas como animador da extrema direita. Que uma parcela considerável de empresários e da classe mais alta ache que as coisas vão indo bem, como aponta a pesquisa, também faz parte. Ele defende os ricos (que estão “sufocados” deste país, segundo ele) mais do que os pobres.

Tanto que as cinco áreas em que o governo teve pior avaliação são aquelas que atingem exatamente os que mais precisam do Estado para garantir um mínimo de dignidade: combate à fome e à miséria (14% de ótimo e bom), saúde (15%), combate ao desemprego (16%), educação (21%) e habitação (22%)

Esse período sombrio na economia tem sido usado para limar direitos daqueles que pouco têm, aumentando a desigualdade social. E o pacote de garantias trabalhistas e liberdades individuais vai fazendo água. A parcela que detém bilhetes de primeira classe sabe que sempre terá acesso aos botes salva-vidas com ele no comando, então segue o champanhe. O resto? Que pegue uma senha e aguarde sua vez em empregos precários e vendendo bolo na esquina. Mas sem reclamar, se não é GLO na cabeça com excludente de ilicitude.

Por isso, prefiro enxergar Bolsonaro não como o capitão de um navio. Ele é o próprio iceberg, pronto para afundá-lo.

Em tempo: Parte de seus fiéis, contudo, vai achar que iceberg é bom. Porque é mais gelo para o churrasco que, com a inflação, só eles podem pagar.

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