“Vocês querem me derrubar?” Bolsonaro declara guerra à imprensa

"Liberdade de expressão e democracia não combinam com o bolsonarismo para quem o mundo é dividido entre quem manda e quem obedece", escreve o jornalista Ricardo Kotscho sobre o ataque de Jair Bolsonaro à Folha de S. Paulo

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Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia – JAV 

“Eu lamento a imprensa brasileira agir dessa maneira. O tempo todo mentindo, distorcendo, difamando. Vocês querem me derrubar? Eu tenho couro duro, vai ser difícil. Continuem mentindo”, vociferou o presidente Jair Bolsonaro, na manhã desta segunda-feira 7, diante dos jornalistas confinados num cercadinho nos jardins do Alvorada.

Cada vez mais nervoso e desatinado, o capitão agora não responde mais a perguntas de repórteres, mas se dirige diretamente a um punhado de beatos da seita que vão lá diariamente tirar selfies e gritar “Mito!” quando ele desponta em público.

Quer imitar seu êmulo Donald Trump, mordendo os microfones nos jardins da Casa Branca, transtornado com o impeachment batendo à sua porta. Lá, ao contrário daqui, as instituições cumprem seu papel constitucional, e Trump sabe o perigo que está correndo. Já pediu até ajuda da China…

Aqui, o presidente controla o Legislativo e o Judiciário, governa praticamente sem oposição, e o chamado quarto poder, a imprensa, é o único que ainda denuncia suas maluquices e maracutaias nos laranjais.

Habituado a falar o que quer nas redes bolsonaristas, no SBT e na Record, o capitão presidente não se conformou com a manchete da Folha de domingo (“Ex-assessor implica ministro e Bolsonaro em caixa 2 do PSL”) e foi à forra no Twitter: “A Folha de S. Paulo avançou a (sic) todos os limites, transformou-se num panfleto ordinário às causas (sic) dos canalhas. Com mentiras, já habituais, conseguiram descer às profundezas do esgoto”, disparou.

Logo saíram em sua defesa o ministro Sergio Moro, que o absolveu liminarmente de qualquer irregularidade, e o chefe da Secom, Fabio Wajngarten, para sugerir um boicote de anunciantes de empresas privadas aos veículos que criticam o governo e já foram cortados da propaganda oficial.

Em sua declaração de guerra à Folha, Bolsonaro já tinha ido na mesma linha, ao tuitar: “O que mais me surpreende são os patrocinadores que anunciam nesse jornaleco chamado de Folha de S. Paulo”.

Jornal não tem “patrocinadores”, mas anunciantes de empresas privadas, e a Folha de S. Paulo é o maior e mais respeitado veículo impresso do país desde 1984.

Liberdade de expressão e democracia não combinam com o bolsonarismo para quem o mundo é dividido entre quem manda e quem obedece. Na cartilha do capitão, quem manda é ele e quem não obedece é demitido ou abatido.

Sergio Moro já aprendeu essa lição e agora faz qualquer coisa para se manter no cargo, sem nenhum pudor de falar de processos que correm em sigilo, para fazer a defesa incondicional do presidente. Aquela história de “combate à corrupção” só valia para o PT quando ele era o implacável juiz de primeira instância em Curitiba. Agora, Moro é governo, graças à grande farsa da Lava Jato, que tirou Lula da eleição, elegeu Bolsonaro e destruiu a economia nacional.

Que fim levaram os patos amarelos do Paulo Skaf da Fiesp, as paneleiras dos terraços gourmet e as marchadeiras e marombados que foram às ruas para derrubar a presidente eleita Dilma Rousseff e transformaram os palestrantes Moro & Dellagnol em “heróis nacionais” do combate à corrupção?

Cadê os jornalistas investigativos e comentaristas isentos que divulgaram acriticamente, e com muito gosto, os “vazamentos” da força-tarefa da Lava Jato e comemoraram a prisão de Lula?

Se não fosse a coragem de Glenn Greenwald, o jornalista americano do The Intercept, que revelou ao mundo os crimes cometidos para condenar e prender Lula, até hoje estaríamos vivendo na mentira lavajatense da República de Curitiba, acobertada durante cinco anos pelos tribunais superiores.

Com a ameaça ostensiva da censura econômica aos veículos que ainda não se renderam ao autoritarismo da nova ordem, o ataque às liberdades democráticas muda de patamar, mas não se vislumbra no horizonte nenhum sinal para impedir o avanço da barbárie sobre o Estado de Direito.

Só os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal, caso assumam suas responsabilidades em defesa da Constituição, poderão impedir a volta à ditadura, mas nesta semana não acontecerá nada porque vários deles estão com viagem marcada. Foi tudo adiado para sabe Deus quando.

Mas já sabemos que não se pode contar com pelo menos três ministros, Luiz Fux, Edson Fachin e Luis Roberto Barroso, fechados com os interesses militares, financeiros e midiáticos que continuam defendendo a Lava Jato para impedir que os processos contra o ex-presidente Lula sejam anulados em cumprimento da legislação vigente no país.

Curioso é o motivo apresentado por Luiz Fux para se ausentar das sessões que podem definir o futuro da nossa democracia, cada vez mais teocrática: vai participar de um “retiro espiritual”.

É muito bom, rezar faz bem. Eu também faço dois retiros por ano, mas não em dias de trabalho, e não tenho as responsabilidades de um ministro do STF.

Vida que segue.

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