Sobre Príncipes e Princesas

É importante entender que a maioria das pessoas não compreende o que está por trás de definições como príncipe e princesa

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Imagem ilustrativa

Meninos são príncipes e meninas são princesas. Será que essa afirmação deve mesmo causar tanto furor? Porque as pessoas, especialmente as feministas, se ressentem tanto com esses papeis femininos e masculinos, que povoaram por tanto tempo o imaginário das pessoas e do universo dos contos de fadas?

Sem dúvida alguma essa ideia remete ao retorno do modelo tradicional de relacionamento e de família, mas será mesmo que são sustentáveis nos dias atuais? Vamos apresentar algumas variáveis interpretativas a seguir desprovidos da pretensão de posicionamento conclusivo, mas sobretudo como contribuição reflexiva.

Primeiro é importante entender que a maioria das pessoas não compreende o que está por trás de definições como príncipe e princesa. Não sabe que esses estereótipos carregam uma relação de desigualdade. Esse tipo de relacionamento, retirado dos contos de fadas, só contribui para ampliar as desigualdades entre homens e mulheres e recolocar as mulheres “em seu lugar “– o lar, além de representar um compromisso ativo com o machismo na sociedade moderna.

Mas as mulheres compreenderam que podem e devem ser sujeitos de sua própria história. Essa lição já aprenderam na década de 1960, com a segunda onda feminista, quando Betty Friedan, reconhecida feminista, já denunciava que a opressão feminina se encontrava em seu próprio lar, quando as mulheres, excluídas dos espaços públicos e das possibilidades de produzir autonomia, como o acesso ao trabalho e renda, cumpriam apenas funções de dona de casa, mãe e esposa, subordinadas aos pais ou esposos. Libertar-se dessa opressão era o primeiro passo para a emancipação feminina.

Com a entrada da mulher no mercado de trabalho essa possibilidade se tornou concreta e os ideais de “amor romântico”, e da família tradicional tendem a fragmentar-se sob a pressão da emancipação e da autonomia sexual feminina, pois as mulheres, assim como os homens, encontram sentido na sua existência, por meio da liberdade de escolha, do trabalho, dos seus pensamentos e das suas experiências, que podem ocorrer tanto na esfera privada quanto na esfera pública.

De acordo com o sociólogo inglês contemporâneo, Anthony Giddens, em seu livro “A Transformação da Intimidade” o tipo de relação que se sustenta nas sociedades ocidentais atuais não é o amor romântico, retirado dos contos de fadas, mas sim o que ele chamou de “relacionamento puro”, que nada mais é do que a promoção da democracia no plano pessoal, compartilhado por pessoas que escolhem conviver.

Mas, para compreender como é possível viver um relacionamento afetivo de forma democrática devemos procurar compreender como funciona a democracia do ponto de vista político.  Nessa direção, sem entrar nos detalhes sobre as diferentes concepções acerca do conceito de democracia e tomando como parâmetro apenas os elementos de maior interesse deste tipo de regime político, podemos dizer que um dos pressupostos da democracia política é o de assegurar relações livres e iguais entre os indivíduos, com o objetivo de produzir certos resultados, como: promover a equidade, a autonomia e a liberdade, para que os sujeitos possam deliberar, escolher e agir diante de diferentes cursos de ações possíveis em suas vidas, desde que não utilizem essas prerrogativas para negar os direitos dos outros.

Esse é um ponto importante. A Democracia implica tanto o autodesenvolvimento livre e igual, quanto a limitação do poder, por meio de regras bem definidas (Constituição). Também a democracia significa discussão, diálogo, onde possa prevalecer a força do melhor argumento. Por fim, a democracia é amiga do pluralismo, estimula a diferença e a autonomia.

Esclarecidos alguns dos princípios basilares da democracia, podemos retornar para o terreno da vida privada e de como ocorre um relacionamento democrático nesse plano. De acordo com Giddens, a democracia nos relacionamentos pode ser alcançada por meio da autonomia que cada sujeito (homem ou mulher) se permite alcançar, “através da realização bem-sucedida do seu projeto de vida, do seu desenvolvimento pessoal, da afirmação do projeto reflexivo do eu”. Assim concebida, a autonomia permite o respeito pelas capacidades do outro, intrínseco a uma ordem democrática, entendendo que o desenvolvimento e os potenciais, não são uma ameaça ao seu próprio desenvolvimento e potencial, do outro não são uma ameaça ao seu próprio desenvolvimento e potencial. Ou seja, o alcance da autonomia não fere a masculinidade ou feminilidade do outro.

Em um relacionamento pautado pelo respeito às liberdades individuais, onde, onde cada um possui autonomia, os limites pessoais são configurados de maneira a não representar ameaças ao outro, a relação ocorre de maneira a não transgredir a individualidade e a autonomia do outro. Produzindo, um relacionamento muito mais equilibrado e capaz de lidar com as questões da convivência e da vida em comum. No relacionamento democrático, se pressupõe uma relação igualitária, se reconhece a alteridade do outro e a sua condição de sujeito autônomo no mundo.

Por este motivo, fomentar o retorno das diferenças sociais entre mulheres e homens (binárias, assimétricas e opressivas), e ao mesmo tempo defender a diminuição da violência contra a mulher é um paradoxo marcado por uma tendência reacionária e, anti-democrática. Ou seja, essa equação não alcança um resultado satisfatório. Só se pode promover equidade e diminuição da violência feminina com muita discussão de gênero, por meio da educação, do entendimento de que ainda há abismos entre esses sujeitos sociais e de que é necessário refletir e produzir políticas afirmativas para as mulheres. Seguramente não será por meio de valores religiosos, calcados no modelo tradicional de família patriarcal que se combaterá a desigualdade de gênero e suas mazelas. Discursos e ações nesta perspectiva somente servirão para ampliar o número de feminicídios e violência contra a mulher.

Ao defender que meninos sejam príncipes e meninas princesas estamos recolocando as meninas de volta ao seu papel de objeto, em que a beleza, a delicadeza e o bom comportamento são valorizados, em detrimento de outras qualidades, como coragem, inteligência e autonomia. A questão é que as meninas devem ser o que quiserem, sem que tenhamos que colocar rótulos. Aliás, elas já estão sendo. As meninas não precisam de príncipes encantados. Elas precisam de respeito, de trabalho e de salários justos. E quando quiserem (se quiserem), escolherão um parceiro que as trate como uma igual e não alguém que irá promover a sua salvação.

Ms. Luciane da Luz
Coordenadora e Docente dos cursos de Sociologia, Filosofia e Ciência Política, Centro Universitário Leonardo da Vinci-UNIASSELVI

1 COMENTÁRIO

  1. Ms Luciane Luz, adorei seu artigo “Sobre Príncipes e Princesas”. É muito difícil ainda para as mulheres serem vistas como “iguais” em direitos. A mulher é o ser mais oprimido da história da humanidade, em todos os tempos e sociedades. Começa pela Bíblia, onde “a mulher que dará a luz em dores de parto”. Quando na verdade, os dois desobedeceram a instrução de não tocar no fruto proibido. No entanto, só a mulher foi sentenciada a sofrer. E, hoje em dia, mesmo com direitos conquistados através de muita luta, as mulheres ainda são oprimidas pelos valores tradicionais de uma sociedaxe patriarcal. A violência contra as mulheres comprova isso. Ainda temos muito que fazer para o reconhecimento do papel da mulher como sujeito de direitos.

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