Sobre o PROUNI e o guri mais bonito da rua da minha infância

0
1096

Quando eu era bem guria e vivia com minha mãe e meus quatro irmãos num apartamento, admirava, do outro lado da rua, uma casa enorme, branca com janelas azuis. Eles eram muito ricos e foram as primeiras pessoas com motorista particular que eu conheci. Na verdade, se bem me lembro, eles tinham empregados no plural: uma mulher governanta e um homem motorista. Digo se bem me lembro pois só olhávamos isso tudo de longe, do outro lado da rua e sabíamos um pouquinho do que acontecia na casa branca com azul pois a mulher governanta negra e o homem motorista negro tinham um filho e esse filho era o guri mais bonito da rua. Ele era lindo e super educado. O máximo que ouvíamos dele era um “boa noite” quando ele entrava ou saia da casa dos patrões dos pais. Sim, eles moravam todos nessa casa. Esse guri educado estudava direito. Na rua todos comentavam como os patrões dos pais do guri bonito eram bons pois pagavam a faculdade dele.

Lembrei do guri bonito e daquilo que falávamos sobre os patrões quando vi as imagens da formatura de uma filha de porteiro com uma doméstica. Claro que o estudo do guri bonito filho do motorista e da governanta e da guria filha do porteiro e da doméstica é o mesmo. Então o que os diferencia? Existe algo? Sim. O guri era visto – por todos nós – como devedor de um favor aos patrões dos pais. A guria não deve nada a ninguém. Foi selecionada pelo PROUNI com critérios públicos. A diferença é a política, a política pública. E essa diferença, esse não dever nada pra ninguém, é uma das razões que faz com que tanta gente se incomode com a universidade um pouquinho mais democrática.

Artigo da deputada Manuela D’Ávila